Prestígio recente no Oscar abriu portas para o cinema brasileiro? Cineastas avaliam
Bom momento do Brasil no Oscar vai continuar? O que o Brasil tem vivido no Oscar e em outras premiações internacionais é inédito. Levamos a primeira estatue...
Bom momento do Brasil no Oscar vai continuar? O que o Brasil tem vivido no Oscar e em outras premiações internacionais é inédito. Levamos a primeira estatueta em 2025 com “Ainda Estou Aqui” e podemos levar mais alguma neste domingo (15), com "O Agente Secreto" indicado a quatro categorias. Para quem vivia órfão do quase-Oscar de Fernanda Montenegro e "Central do Brasil", foi uma longa caminhada. Mas será que vamos seguir na boa toada nos próximos anos? E será que esses feitos lá fora ajudam o cinema aqui dentro? Infelizmente, não é tão simples. Ao g1, cineastas da nova geração avaliam o "bom momento" e reforçam que o futuro segue incerto. Eles resumem a situação em dois pontos: "Ainda estou aqui" e "O agente secreto" são casos específicos A produção depende de incentivos públicos, ainda escassos no Brasil Kleber Mendonça Filho com Gabriel Leone nos bastidores do filme 'O agente secreto' Divulgação/Victor Jucá 1) Casos são específicos Não é passo de mágica nem sorte. Os cineastas ouvidos pelo g1 lembram que “Ainda Estou Aqui” (Walter Salles) e “O Agente Secreto” (Kleber Mendonça Filho) são casos singulares, com alguns fatores em comum que possibilitaram esse sucesso: Kleber e Walter são diretores consagrados, autorais e já conhecidos lá fora; Mercado internacional enxerga filmes latinos como “um bloco só” com um concorrente que se destaca e, em 2024 e 2025, foi o Brasil — o que pode não ser o caso nos próximos anos; Filmes estrearam em festivais internacionais e foram adquiridos por grandes distribuidoras como Neon e Sony. Em um painel no Festival de Tiradentes, o produtor Rodrigo Teixeira destacou que ter o cinema brasileiro indicado à categoria de Melhor Filme no Oscar por dois anos consecutivos representou, sim, um "empoderamento" histórico para o setor. Mas o produtor defendeu que esse prestígio internacional não pode ser um evento isolado: tem que servir para o aprimoramento de políticas públicas e para a renovação de talentos, porque os cineastas que vencem hoje têm uma trajetória de décadas. Rodrigo acrescentou que, a essa altura no ano passado, já rolava um burburinho em torno de "O Agente Secreto". Não é o caso desta vez. “Eu não vejo o cinema brasileiro, nos próximos dois ou três anos, voltando para o Oscar ou ocupando uma posição de destaque como agora com esses dois filmes”, disse o produtor. Mas o que Rodrigo disse no painel, e está claro para quem quer que procure, é que não faltam bons novos cineastas no Brasil. O que falta é recurso para que sigam os passos de Kleber e Walter. É o caso de Gabriel Martins, que assina "Marte Um". O filme de Martins foi escolhido para representar o Brasil no Oscar em 2022, mas o diretor disse ao g1 que até hoje tem dificuldades para seguir produzindo. "'Marte Um' abriu portas para mim, me provocou muita coisa, mas não me garantiu uma carreira, um momento de estar com vários projetos engatilhado. Eu dependo de editais aparecerem para fazer um próximo filme. Eu não tenho esse caminho garantido ou facilitado, como talvez idealmente deveria ter". 2) Cineastas dizem que falta incentivo Com Oscar ou não, a produção de filmes em praticamente qualquer país depende de incentivos e recursos públicos. “O Agente Secreto” só pôde ser feito, em parte, graças ao fomento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Ao g1, Matheus Peçanha, cineasta e um dos diretores da Associação de Produtoras Independentes, reforça que é impossível falar do cinema nacional sem entrar nessa questão. “Entre 2012 e 2018, você teve um investimento muito massivo e que foi muito bom pro cinema brasileiro. Foram políticas muito consistentes de fomento, tanto a produção do cinema, quanto de apoio, de programas de apoio à participação de produtores em eventos de mercado. E o reflexo vem só agora”. Walter Salles após levar o Oscar de melhor filme internacional REUTERS/Daniel Cole Então, esse é o parâmetro: mais do que reconhecimento internacional, o que aponta o futuro do cinema nacional é o incentivo público. Infelizmente, os entrevistados afirmam que os cineastas independentes não vêm tendo o apoio necessário para seguir produzindo. "Eu sei qual é o cronograma do edital da Colômbia... do Uruguai... Eu não sei qual é o cronograma de editais do Brasil, o país onde eu trabalho. O último edital é de 2024, não teve edital seletivo de cinema em 2025. Como que, no ano que você tem o primeiro Oscar do Brasil, você não lança um edital seletivo?", diz Matheus. Ao g1, o Ministério da Cultura declarou que o comitê gestor do FSA (Fundo Setorial de Audiovisual) ampliou os investimentos em R$ 100 milhões para a Chamada Pública de Produção Seletivo de Cinema de 2024. O edital passou a contar com R$ 260 milhões para financiar longa-metragens para o cinema. Na nota, o órgão disse que também optou pela união dos editais seletivos de cinema de 2024 e 2025 "diante do volume e alta demanda por investimentos". "A ANCINE assegurou a continuidade dos investimentos na cadeia produtiva do audiovisual mesmo no contexto de aprovação tardia do orçamento federal de 2025, garantindo a execução financeira prevista sem interrupção dos processos em curso", diz a nota. O Ministério afirma que o lançamento de novos editais está previsto para abril deste ano. Agora vai? Para Gabriel, a atenção internacional no Oscar e outras premiações impactou positivamente a forma que o cinema (e o próprio Brasil) é visto fora daqui. Neste ano, "O Agente Secreto" colocou o mundo para conhecer um pouco de Pernambuco, para falar de Carnaval e rendeu reportagens em grandes portais mundiais sobre a cultura nacional. Mas por mais que a gente queira dizer que o futuro é promissor, quem está na indústria sabe que o buraco é mais embaixo. Wagner Moura, Kleber Mendonça Filho, Gabriel Leone, Alice Carvalho e Emilie Lesclaux recebendo o prêmio de melhor filme em língua não inglesa por "O Agente Secreto" durante a 83ª edição do Globo de Ouro Kevork Djansezian/CBS Broadcasting via AP Não é esse reconhecimento internacional que, por si só, vai garantir um futuro a longo prazo pro nosso cinema. Os cineastas dizem que falta mais investimento, incentivo e regulamentação. "O que a gente está tentando gritar é sobre esse paradoxo: estamos num momento de dois anos em seguida, sendo celebrados em alto volume mundialmente. E quando corta para cá, a gente ainda se vê muito vulnerável em termos de produção. A gente entra num ano em que existe muita incerteza de editais", diz Gabriel. "A gente não pode falar 'agora vai', sabe? O sentimento de 'agora vai' não veio. Não veio desde o ano passado e, esse ano, não tem indicações de que o que quer que aconteça lá no dia do Oscar esse ano vai guinar a produção brasileira para um lugar mais otimista."