Petrobras ganha com petróleo caro, mas guerra no Irã expõe dilemas da estatal

Conflito no Oriente Médio: o papel estratégico do Estreito de Ormuz A alta do petróleo no mercado internacional, impulsionada pela escalada do conflito no Or...

Petrobras ganha com petróleo caro, mas guerra no Irã expõe dilemas da estatal
Petrobras ganha com petróleo caro, mas guerra no Irã expõe dilemas da estatal (Foto: Reprodução)

Conflito no Oriente Médio: o papel estratégico do Estreito de Ormuz A alta do petróleo no mercado internacional, impulsionada pela escalada do conflito no Oriente Médio, coloca a Petrobras diante de um cenário com efeitos opostos. Ao mesmo tempo em que o barril mais caro aumenta as receitas da companhia e fortalece seu caixa, também reacende debates sobre a política de preços da estatal, amplia os riscos ligados à importação de diesel e eleva a pressão política para evitar impactos maiores na inflação no Brasil. 🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Segundo João Abdouni, analista da Levante Inside Corp, a valorização do petróleo tende a melhorar os resultados da Petrobras, principalmente por causa das exportações. “A alta do petróleo impacta positivamente os resultados da Petrobras, especialmente no segmento de exportação, que ganha margens maiores neste momento.” 🛢️ A razão é direta: quando o barril sobe no mercado internacional, as vendas externas da empresa passam a gerar mais receita. Como a Petrobras é uma das principais produtoras e exportadoras de petróleo do mundo, o movimento tende a reforçar a entrada de dinheiro na companhia. Esse efeito já foi observado em ciclos anteriores de preços elevados. De acordo com Vitor Sousa, analista da Genial Investimentos, períodos em que o Brent operou próximo ou acima de US$ 100 costumam resultar em forte geração de caixa para a estatal. “Em períodos anteriores de Brent alto, na casa dos US$ 100, a Petrobras gerou um fluxo de caixa massivo, chegando a distribuir R$ 215 bilhões em dividendos”, afirma. Esse potencial de geração de caixa ajuda a explicar por que empresas de petróleo costumam se sair melhor em momentos de tensão internacional, quando conflitos ou riscos geopolíticos costumam elevar o preço da commodity. “Em dias de sell-off [quando há uma onda de vendas de ações que derruba os preços na bolsa], a Petrobras costuma se destacar positivamente junto com outras petroleiras, justamente por essa correlação direta com a commodity", explicam Rafael Figueiredo e Maria Irene, analistas da XP Investimentos. Política de preços volta ao centro do debate Se o petróleo caro melhora os resultados da Petrobras, ele também reacende discussões sobre a forma como a empresa define os preços dos combustíveis no Brasil. Desde 2023, a estatal deixou de seguir automaticamente as oscilações do mercado internacional. O antigo modelo, conhecido como paridade de importação (PPI), foi substituído por um sistema mais gradual de reajustes. Segundo Marcos Bassani, analista e sócio da Boa Brasil Capital, essa mudança ajudou a reduzir os impactos imediatos de crises externas sobre os preços dos combustíveis no país. “A Petrobras abandonou o PPI por um modelo discricionário e gradual, o que reduz a frequência de reajustes e amortece o impacto da guerra para o consumidor no curto prazo”, explica. Isso significa que oscilações rápidas no preço do petróleo não são repassadas imediatamente para a gasolina ou o diesel vendidos no Brasil. A estratégia busca evitar aumentos bruscos nas bombas, mas pode gerar desafios quando a diferença entre os preços internos e os internacionais cresce demais. 📊 Quando essa defasagem cresce, parte do mercado passa a questionar os impactos da política de preços sobre os resultados da Petrobras e sobre as contas públicas, já que a estatal tem peso relevante na arrecadação do governo. (entenda mais abaixo) Segundo Abdouni, a Petrobras tem adotado uma postura cautelosa neste momento de volatilidade. “A empresa tem atrasado o repasse de preços, preferindo esperar a estabilização das cotações em patamares elevados para evitar repassar a volatilidade imediata ao mercado local”, diz. Dependência de diesel importado traz riscos Um dos principais pontos de atenção nesse cenário é o diesel. Embora o Brasil produza muito petróleo, o país ainda depende da importação desse combustível para atender totalmente ao consumo interno. Isso significa que grandes diferenças entre os preços praticados pela Petrobras e os valores do mercado internacional podem desestimular empresas privadas que trazem diesel de fora. Bassani alerta que essa situação pode criar problemas no abastecimento. “Grandes defasagens podem desestimular importadores e gerar risco de oferta”, afirma. Se o petróleo continuar caro por muito tempo, a pressão para reajustes tende a aumentar. Nesse caso, segundo o analista, a Petrobras pode acabar tendo que elevar os preços para recompor suas margens. Esse equilíbrio entre manter preços estáveis e preservar os resultados da companhia costuma ser um dos pontos mais sensíveis na gestão da estatal, especialmente em períodos de inflação elevada. Petróleo caro pode pressionar inflação A alta do petróleo não afeta apenas os resultados da Petrobras. O impacto se espalha por toda a economia. O diesel, por exemplo, é o principal combustível usado no transporte de cargas no Brasil. Por isso, quando seu preço sobe, o custo do frete tende a aumentar — e isso acaba sendo repassado ao longo da cadeia produtiva. Segundo Jhonny Martins, especialista contábil e vice-presidente do SERAC, o impacto vai muito além do transporte. “O combustível não é apenas custo de transporte. Ele afeta toda a cadeia produtiva e logística”, afirma. Como consequência, a alta dos combustíveis pode chegar ao consumidor final na forma de produtos e serviços mais caros. “A dependência da importação de diesel e gasolina faz com que o preço internacional influencie diretamente o mercado interno, resultando em preços mais altos no supermercado e nos serviços”, diz Martins. Petróleo muito alto também preocupa investidores Apesar dos ganhos para empresas do setor, preços muito elevados do petróleo também podem trazer preocupações para o mercado financeiro. Segundo Rafael Figueiredo, estrategista de ações da XP, existe uma "faixa" considerada mais favorável para o desempenho da economia e da bolsa brasileira: quando o barril fica entre US$ 60 e US$ 70, o impacto costuma ser positivo. Já níveis muito acima disso tendem a gerar preocupação. “Patamares acima de US$ 90 a US$ 100 pioram o desempenho, porque o impacto inflacionário acaba superando os benefícios da balança comercial”, aponta . Isso acontece porque energia mais cara pressiona a inflação e pode dificultar a redução das taxas de juros, afetando diferentes setores da economia. Em cenários assim, analistas apontam que os efeitos costumam aparecer primeiro no mercado financeiro. 💰 No mercado: pode haver maior pressão sobre os títulos da dívida pública, manutenção de juros elevados por mais tempo e mais cautela das empresas na hora de investir.. 👥 Na economia real: se esse ambiente se prolonga, os impactos tendem a chegar de forma indireta ao dia a dia da população, com crédito mais caro, menor geração de empregos e crescimento econômico mais lento. E mesmo entre empresas de petróleo, alguns analistas recomendam cautela neste momento. Para Vitor Sousa, da Genial Investimentos, parte do cenário positivo já pode estar refletida nos preços das ações. “O melhor já passou”, afirma o analista, ao argumentar que o mercado trabalhava anteriormente com um Brent entre US$ 70 e US$ 80. Segundo ele, comprar ativos do setor quando o petróleo já está muito valorizado pode ser um movimento arriscado – razão pela qual a recomendação atual para algumas empresas é apenas manter as posições. Edifício-sede da Petrobras, no centro do Rio Marcos Serra Lima/g1