Mulher trans baleada no meio da rua pela PM morre no dia do aniversário em MS
Mulher trans é contida a tiros após apontar arma que PM deixou cair em confusão Uma mulher trans identificada como Gabriella morreu na noite de segunda-feira...
Mulher trans é contida a tiros após apontar arma que PM deixou cair em confusão Uma mulher trans identificada como Gabriella morreu na noite de segunda-feira (16), após ser baleada pela Polícia Militar durante uma confusão na Avenida Calógeras, na região comercial de Campo Grande. Segundo a corporação, ela foi atingida depois de pegar a arma de um dos policiais, que caiu no chão, e apontá-la para a equipe. Ao g1, o irmão da vítima, Vitor de Paula Rodrigues do Nascimento, disse que Gabriella era usuária de drogas e fazia aniversário nesta segunda-feira. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Segundo o irmão, o vício se agravou após a morte da mãe. “Tem uns quatro a cinco anos que ela estava nessa vida. Ela já havia sido internada em clínicas, na Clínica da Alma, já foi para São Paulo. Fiz de tudo para tirar ela dessa vida, só que ela não queria. Ela ficava muito no Cetremi, o pessoal do Cetremi gostava muito dela", relembra. Uma amiga contou a Vitor que Gabriella estava trabalhando e pretendia comemorar o aniversário naquela noite. “Ela saiu para curtir o aniversário, aí acontece uma fatalidade dessa. É complicado, eu sempre falei para ela: ‘Vamos sair dessa vida, mana, vamos sair dessa vida, porque do jeito que você está indo…’. Ela tinha um estopim muito curto, não tinha medo de ninguém", disse Vitor. Em depoimento, o policial militar que atirou afirmou ter feito três disparos. Já o irmão da vítima disse que a médica da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) informou que Gabriella foi atingida por quatro tiros. O caso é investigado. A Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul (ATTMS) divulgou nota em que lamenta a morte de Gabriella. Confira na íntegra no fim da matéria. Entenda o caso Imagens de câmeras de segurança mostram os policiais militares tentando conter uma discussão entre pessoas que estavam no cruzamento da Avenida Calógeras com a Rua 15 de Novembro, durante patrulhamento de rotina. Durante a abordagem, houve luta corporal entre o grupo da PM e os moradores em situação de rua. Nesse momento, um dos policiais deixou a arma cair da farda. Gabriella então pegou o revólver e apontou contra a equipe. Ela foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Em nota, a PM afirma que "reitera que os procedimentos operacionais padrão foram seguidos e que um Inquérito Policial Militar (IPM) será instaurado para apurar todas as circunstâncias do fato, como é praxe em ocorrências que envolvem o uso de arma de fogo por parte de seus membros". Veja a nota da ATTMS na íntegra "É com profundo pesar que recebemos a triste notícia do falecimento de Gabriella, pessoa trans em situação de rua. Gabriella foi alvejada hoje, 16 de fevereiro de 2026, por quatro disparos de arma de fogo efetuados por um Policial Militar, conforme noticiado pelo O Estado Online e demais jornais eletrônicos locais. Lamentamos profundamente o ocorrido em um país onde a expectativa de vida da população trans e travesti não ultrapassa, em média, 35 anos, e que segue figurando entre os países que mais assassinam pessoas trans no mundo. Por outro lado, também somos o país onde a polícia mais mata, tendo como principais vítimas jovens pretos e pardos das periferias; ao mesmo tempo, muitos policiais mortos também são, em sua maioria, homens negros oriundos dessas mesmas periferias. Trata-se de um ciclo estrutural de violência que precisa ser enfrentado com responsabilidade e seriedade. Reafirmamos que não concordamos com nenhum ato de violência. O ato de pegar e apontar uma arma para a polícia não é a melhor escolha, e a polícia pode e deve agir em legítima defesa. No entanto, não se pode apagar os dados históricos de violência e discriminação com que forças policiais, reiteradamente, agem contra travestis e transexuais no Brasil. Em Campo Grande/MS, isso não é diferente, visto que, em passado recente, eram comuns os chamados arrastões, além de torturas, espancamentos e violências físicas, psicológicas e verbais. Reafirmamos, ainda, nosso respeito à instituição Polícia Militar, assim como às demais instituições públicas, e nossa confiança nos bons policiais que exercem sua função com ética, humanidade e compromisso com a vida, sem usurpar da farda nem do poder do Estado na condição de servidores públicos. Reconhecemos que há profissionais sérios que honram seu juramento diariamente. No entanto, exatamente por respeito à instituição, entendemos que eventuais excessos não podem ser silenciados ou relativizados, devendo ser apurados com rigor, transparência e responsabilidade, pois a farda não pode servir de escudo para abusos, assim como o Estado não pode compactuar com práticas que violem direitos humanos. Esse histórico demonstra que, ainda que Gabriella estivesse errada em sua conduta, o uso desproporcional da força precisa ser rigorosamente apurado. Quatro disparos de arma de fogo não podem ser automaticamente compreendidos como legítima defesa sem uma análise técnica minuciosa. O que se tem agora é o extermínio de uma pessoa trans, fato gravíssimo que exige apuração séria, técnica e imediata por parte do MPE e demais órgãos competentes. Ao realizarmos varreduras nas redes sociais, constatamos que não faltam comentários transfóbicos, com ataques, xingamentos, palavras de baixo calão e manifestações de cunho criminoso. Tais conteúdos serão levados às autoridades competentes, pois opinião não se confunde com violência verbal. Liberdade de expressão não é carta branca para incentivar ou aplaudir violência contra pessoas LGBT+. Todo e qualquer ato de violência é repudiável, seja praticado pela própria travesti, seja por agentes do Estado. Ainda é indispensável apurar o que ocorreu antes da abordagem, quais ofensas foram proferidas, quais ataques antecederam os disparos, quais violências geraram outras violências — inclusive por parte dela e dos próprios policiais — e, sobretudo, qual foi o motivo da utilização de armamento letal, considerando que existem instrumentos não letais que poderiam ter sido empregados. Os fatos serão acompanhados pelas autoridades competentes. Iremos denunciar e exigir apuração real e transparente do ocorrido, juntamente com a sociedade civil organizada, que não se calará até que tudo seja devidamente esclarecido. Caso se constate excesso, que haja punições. O papel da polícia é servir e proteger - nunca agredir, constranger, muito menos ferir ou matar." Mulher trans apontou arma a policial durante briga. Câmeras de segurança/Reprodução Veja vídeos de Mato Grosso do Sul