Médico cria receitas com desenhos para pacientes que não sabem ler e muda tratamento de doenças no Sertão
Médico cria receita com figuras para ajudar pacientes que não sabem ler No Sertão pernambucano, na zona rural de Petrolina, um médico se deparou com um abis...
Médico cria receita com figuras para ajudar pacientes que não sabem ler No Sertão pernambucano, na zona rural de Petrolina, um médico se deparou com um abismo invisível para muitos, mas que separava pacientes atendidos do tratamento que podia salvar suas vidas: o analfabetismo e o letramento rudimentar, que impediam os pacientes de compreender as orientações escritas nas receitas. A 700 quilômetros da capital, Recife, a realidade da medicina que Lucas Cardim exerce é bem diferente da dos grandes centros. Ele percebeu que, por mais legível que fosse a letra do médico, o paciente não conseguia entender o tratamento. O problema é que elas não sabiam ler, e o receituário padrão oferecido pelo SUS não era capaz de ajudar. Isso criava um abismo em que, mesmo tendo atendimento médico, o paciente seguia adoecendo. Em seu atendimento, conheceu dezenas de pessoas que, sem saber ler, não se tratavam e eram afetadas por doenças graves. ✍️ Hoje, essa é a realidade de mais de 11 milhões de pessoas no Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Brasil é um país muito desigual. Quando cheguei ao consultório, encontrei um abismo. Muitas vezes, o paciente tinha acesso ao medicamento e à consulta, mas não conseguia se tratar porque não conseguia entender. Então, para mim, foi chocante, porque a gente tem a ideia de que muitos adoecimentos acontecem pela falta de acesso. Nesse caso, existe o encontro, só não existe a comunicação entre o profissional de saúde e o paciente. Quando percebeu o problema, Lucas fazia os desenhos à mão, sinalizando ao paciente se o medicamento deveria ser tomado pela manhã — usando uma xícara de café — ou ao dormir, com uma lua e estrelas ao lado. E até a quantidade de comprimidos, com círculos ao lado. (Veja a imagem abaixo) No começo, Lucas sinalizava nas receitas com desenhos Arquivo Pessoal Ele explica que isso tomava tempo da consulta e, às vezes, constrangia o paciente, que tinha vergonha de que ele passasse um tempo desenhando como seria o tratamento. Foi quando pediu ajuda ao amigo Davi, também de Petrolina, mas que hoje trabalha como engenheiro de software no Google, na Suíça. Juntos, eles criaram a plataforma Cuidado para Todos — um site com a lista dos remédios mais frequentemente usados na atenção primária. Para cada um deles, há uma série de ícones pré-definidos que ajudam o paciente a entender o tratamento. O médico só precisa pesquisar o remédio, clicar nos que quer colocar na receita, imprimir e entregar ao paciente. (Veja a imagem abaixo) Pela plataforma, também é possível imprimir os ícones para colar diretamente nas caixas dos remédios e ajudar os pacientes. E a mudança já vem dando resultado. Com plataforma, receituário sai com figuras que ajudam o paciente a entender quando tomar a medicação e quanto tomar Arquivo Pessoal Um dos casos de que ele se lembra é o de Maria das Dores, uma idosa diabética que sofria internações frequentes por descontrole glicêmico. Ela tinha acesso a médicos e ao medicamento para o tratamento, mas não sabia como utilizá-los sozinha porque não conseguia ler as orientações. “Não é só entregar a receita. A gente ensinou ela a utilizar a caneta de insulina, a gente ensinou ela a fazer a troca das agulhas para a medição de glicemia com a maquininha. Pouco a pouco, ela foi fazendo equilíbrio glicêmico e hoje em dia está super bem. É uma paciente muito querida”, conta. 🔴 O Sistema Único de Saúde (SUS) está em mais de 5 mil cidades brasileiras e, segundo Lucas e Davi, precisa enfrentar as desigualdades e particularidades de cada uma delas para que a saúde seja realmente acessível. É muito pesado você ter uma população condenada a não ter tratamento porque não sabe ler. É muito pesado você pensar que uma mãe não soube usar um dispositivo para tratar a asma do filho porque não sabe ler. Isso não pode acontecer. Atualmente, eles tentam implementar o sistema em unidades básicas pelo país, tudo gratuitamente. Conseguiram uma equipe de voluntários que faz melhorias, ajuda na implementação e realiza treinamentos para que os médicos possam usar a ferramenta. Hoje, a plataforma já está presente em mais de 10 municípios e três distritos indígenas. O objetivo é que essa tecnologia seja doada e incorporada permanentemente ao SUS, como parte do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), mecanismo de receitas usado hoje. A gente veio dessa região, sabe como é difícil o dia a dia das pessoas. Tivemos acesso ao estudo, estudamos em escola pública, universidade pública. Sinto que tenho que devolver às pessoas aquilo que elas me deram. Queremos essa ferramenta na mão do maior número de pessoas possível. O que diz o Ministério da Saúde O Ministério da Saúde disponibiliza ferramentas para apoiar os profissionais do SUS no acolhimento, atendimento e orientação de pessoas com baixo nível de letramento. A pasta tem avançado na produção e disponibilização de pictogramas, ordenados pelas padronizações estabelecidas pelos órgãos reguladores.