Governo Lula vê nova onda de influência de apoiadores de Bolsonaro na gestão Trump para classificar facções como terroristas

Diplomatas brasileiros e auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) detectaram a volta da influência de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro n...

Governo Lula vê nova onda de influência de apoiadores de Bolsonaro na gestão Trump para classificar facções como terroristas
Governo Lula vê nova onda de influência de apoiadores de Bolsonaro na gestão Trump para classificar facções como terroristas (Foto: Reprodução)

Diplomatas brasileiros e auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) detectaram a volta da influência de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro nas decisões da Casa Branca. Reclassificação de facções pelos EUA mobiliza Itamaraty O caminho utilizado envolvendo integrantes da gestão de Donald Trump que seguem a linha mais radical do chamado movimento Maga (Make America Great Again). A leitura do governo brasileiro é que a ideia de classificar as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho (CV) como terroristas é resultado de uma articulação entre aliados do ex-presidente e as figuras mais radicais da extrema-direita trumpista com o objetivo de criar uma armadilha para Lula em um ano eleitoral. Na prática, o governo brasileiro prevê que uma classificação desse tipo nas facções que atuam no país abriria caminho para intervenções militares norte-americanas no território nacional, ferindo a soberania do Brasil, além da aplicação de sanções a instituições financeiras brasileiras. Retomada da influência A avaliação no Palácio do Planalto e no Itamaraty é que esses grupos perderam influência nas decisões da Casa Branca após o fracasso do tarifaço e das sanções contra autoridades brasileiras, mas “ressuscitaram” nas últimas semanas no entorno trumpista, especialmente no Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, fala com repórteres no dia das reuniões informativas confidenciais para o Senado e a Câmara dos Representantes dos EUA sobre a situação no Irã REUTERS/Elizabeth Frantz Não houve posicionamento oficial, nem declarações de integrantes do governo brasileiro, desde que se tornou pública a movimentação da pasta de Rubio para classificar as facções como terroristas. A linha da diplomacia é trabalhar nos bastidores, com discrição. De forma reservada, no entanto, o tom dos diplomatas é de revolta com o que chamam de “balão de ensaio” por "talibãs do Maga" e aliados do governo Trump na direita brasileira. "Já produziram o tarifaço e os prejuízos do ano passado. Seguem tentando causar dano a qualquer custo. Só mudou o assunto, depois que o tarifaço naufragou”, afirmou, sob reserva, uma fonte do Itamaraty. Visita ao ex-presidente Uma das figuras do Maga no entorno de Trump é Darren Beattie, assessor do presidente americano para políticas ligadas ao Brasil. Darren Beattie, político de extrema direita nomeado para cargo de 'assessor sênior para a política em relação ao Brasil'. Divulgação/Departamento de Estado dos EUA Lotado no Departamento de Estado, Beattie foi nomeado para o cargo no final de fevereiro e tem histórico de ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao governo brasileiro, além de participação em eventos de nacionalistas brancos. Nesta semana, o ministro Alexandre de Moraes autorizou o encontro entre Beattie e Jair Bolsonaro na prisão, mas em data diferente da pedida por Beattie. A defesa de Bolsonaro recorreu da decisão, pedindo que a visita ocorra na data pedida inicialmente. Outra fonte da diplomacia, que acompanha as conversas entre Lula e Trump, avalia que os integrantes do Maga estão em busca de uma nova agenda após a repercussão negativa na opinião pública americana em torno da guerra no Irã e das ações do Ice em Minnesota. Contra-ofensiva brasileira Há dúvidas se a ideia de classificar as facções brasileiras como terroristas irá prosperar, mas o governo brasileiro montou uma espécie de contra-ofensiva para evitar a medida. No sábado, o chanceler Mauro Vieira telefonou para Rubio. A conversa girou em torno da visita de Lula a Trump, ainda sem data para ocorrer, mas Vieira pediu a Rubio para que não tome decisões sobre o tema antes do encontro entre os presidentes. Nesta semana, Lula conversou por telefone com os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro, e do México, Cláudia Sheinbaum. Os presidentes do Brasil, Lula, e da Colômbia, Gustavo Petro, durante encontro em Bogotá Ricardo Stuckert/Palácio do Planalto As notas oficiais sobre os telefonemas não mencionam o tema do combate ao crime organizado, embora os dois países possuam facções qualificadas como terroristas pelos Estados Unidos e tenham sido alvo de intervenções de forças americanas em ações contra cartéis. De acordo com funcionários do governo americano, a parte técnica do processo está pronta. O próximo passo seria o envio ao Congresso, uma decisão de caráter político e que está nas mãos de Marco Rubio. O último ato, caso seja aprovado no Congresso, é o aval de Donald Trump. A Embaixada do Brasil em Washington também tem agido nos bastidores, com encontros com deputados e senadores, principalmente democratas, para evitar a aprovação da medida caso Rubio envie ao Congresso. Um dos bolsonaristas empenhados nesta articulação é o influenciador Paulo Figueiredo, denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por coação contra autoridades do Poder Judiciário, com o objetivo de intervir na tramitação da trama golpista. Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, neto do ex-presidente da Ditadura militar João Baptista de Oliveira Figueiredo Reprodução/YouTube À reportagem da GloboNews, ele admitiu que a ideia é criar embaraço na relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos. “Pra gente é bom que esse assunto mantenha a tensão entre os dois países”, disse. “A parte técnica está bem adiantada, vamos chamar assim. Mas só eles sabem ao certo. E, claro, a decisão final passa pela política. Está avançado mas não tem como termos certeza. O governo Lula jogou tudo que tem pra isso não acontecer. Eles estão sendo bem sucedidos em atrasar o passo”, acrescentou. Teste para “química” entre Lula e Trump Integrantes do governo avaliam que a associação entre o atraso da reunião entre Lula e Trump, inicialmente prevista para meados de março, e a nova onda de influência dos radicais do Maga pode esfriar a relação entre os presidente, descrita por ambos como de uma “química excelente” após os contatos presenciais ou por telefone. Trump e Lula mantiveram um encontro bilateral na Malásia, em outubro Getty Images via BBC O ideal, na leitura de fontes da diplomacia, é que o encontro ocorra antes do ciclo eleitoral começar para afastar ruídos. O Ministério da Justiça já preparou um dossiê com iniciativas de combate ao crime organizado para apresentar a Trump. A diplomacia brasileira identificou a tática de usar o tema da segurança pública para provocar atritos entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca em outubro do ano passado, logo após a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Naquele momento, a tática do tarifaço, capitaneada por Eduardo Bolsonaro, já havia fracassado. Na época, o senador Flávio Bolsonaro – agora pré-candidato à Presidência – chegou a fazer uma postagem em uma rede social defendendo a atuação de aeronaves militares americanas na Baía de Guanabara. A partir daí, o governo brasileiro decidiu agir de forma propositiva e passou a pautar, como tema central das conversas com Trump, o combate ao crime organizado. O objetivo era ocupar a agenda e neutralizar a estratégia da direita bolsonarista. O Brasil passou a defender medidas de cooperação entre os países para combater a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas, além de estratégias conjuntas para investigar chefes de organizações e recuperar ativos decorrentes de práticas criminosas. Até fevereiro deste ano, a aposta de auxiliares de Lula era que a boa relação pessoal com Trump seria suficiente para barrar iniciativas de interferência no Brasil no período eleitoral, inclusive no tema da segurança pública. De lá para cá, no entanto, a popularidade do presidente brasileiro caiu, enquanto Flávio Bolsonaro subiu nas pesquisas. A decisão do governo americano sobre como classificar as facções brasileiras servirá de termômetro da postura da Casa Branca em relação ao governo Lula daqui até as eleições de outubro.