Freiras que vivem atrás de grades no Paraná se revezam para rezar 24 horas por dia: 'Adoração perpétua'

Freiras da 'adoração perpétua' vivem enclausuradas no Paraná As freiras da congregação Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua - como o p...

Freiras que vivem atrás de grades no Paraná se revezam para rezar 24 horas por dia: 'Adoração perpétua'
Freiras que vivem atrás de grades no Paraná se revezam para rezar 24 horas por dia: 'Adoração perpétua' (Foto: Reprodução)

Freiras da 'adoração perpétua' vivem enclausuradas no Paraná As freiras da congregação Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua - como o próprio nome sugere - se revezam para rezar 24 horas por dia em frente ao Santíssimo Sacramento, representação da presença de Jesus Cristo na forma de um objeto considerado sagrado. Além disso, a rotina das religiosas conta com quase 10 momentos por dia dedicados à oração. Elas ainda dividem o tempo entre produção de hóstias, afazeres domésticos e missas. A programação é extensa: inicia com o despertar às 4h45 e o primeiro louvor às 5h15. Saiba mais abaixo. ✅ Siga o g1 Ponta Grossa no WhatsApp A congregação tem cerca de 20 conventos pelo mundo e apenas um no Brasil, em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná. No local moram 18 freiras, com idades que variam de menos de 30 a mais de 90 anos. Diferente de outras congregações, que embarcam em missões externas, trabalham em hospitais ou dão aulas, por exemplo, elas têm uma vida predominantemente contemplativa. A sua principal missão é orar, e é por isso que elas vivem em clausura, literalmente atrás de grades. Freiras que vivem atrás de grades se revezam para rezar 24 horas por dia: 'Adoração perpétua' Paulo Roberto Martins/RPC Elas explicam que são separadas do contato físico com pessoas de fora do convento para evitar distrações. Tanto é, que na capela do convento há missas abertas ao público, mas as freiras ficam em uma área separada por grades em frente ao altar. O mesmo vale para os atendimentos individuais, e que as freiras ficam na mesma sala que os fiéis, mas atrás de barras de ferro. Atrás de grades e vestidas de rosa: A história das freiras da 'adoração perpétua' que vivem enclausuradas no Paraná 'Clausura é liberdade': Freira que se dedica à oração contínua no Paraná conta como é viver atrás de grades No entanto, a "adoração perpétua" - de revezamento noite e dia em frente ao símbolo da Eucaristia - e vida de clausura não são exclusividade das Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua. A estrutura é comum em comunidades que são mais voltadas à adoração e contemplação. O doutor em Teologia Kevin Kossar Furtado, professor do departamento de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), explica que o uso de grades na Igreja Católica surgiu na Idade Média e se consolidou na Idade Moderna, como parte de uma tradição de separação entre a vida religiosa e o mundo exterior. "Sobretudo após as reformas promovidas pela igreja católica a partir do século XVI, comunidades femininas de vida recolhida passaram a usar barreiras físicas, como muros, portões e grades, para preservar um ambiente considerado mais favorável à oração, ao silêncio e à vida comunitária", explica. Ele destaca que, na prática, essas estruturas delimitavam os espaços reservados às religiosas e regulavam o contato com visitantes, familiares e autoridades religiosas. "Muitas conversas, orientações espirituais, encontros familiares e até negociações administrativas aconteciam através dessas divisórias. Pesquisadores da história monástica observam que as grades funcionavam como uma fronteira simbólica: marcavam a opção por uma vida mais recolhida, mas sem romper completamente os vínculos entre o convento e a comunidade", aponta. Mais histórias: 'Providência divina': Irmãos são ordenados padres no mesmo dia 'Não queria parar, mesmo sabendo o final': Mãe copia Bíblia à mão duas vezes Além do meme: Freiras do beatbox trabalham com recuperação de dependentes Convento em Ponta Grossa Na capela, grades separam freiras dos fiéis Paulo Roberto Martins/RPC Em Ponta Grossa, a capela fica aberta ao público com missas todos os dias. A comunidade também pode pedir orações ou deixar desabafos por escrito. Também são permitidas conversas separadas com as irmãs, em salas onde as religiosas ficam separadas dos fiéis por um gradil. As freiras vestem um característico hábito cor-de-rosa - que, para elas, representa a alegria de servir a Deus. 🔎 O hábito é a vestimenta tradicional usada pelas freiras e religiosas. Ele funciona como um sinal exterior da sua consagração a Deus e identidade vocacional, simbolizando os votos de pobreza, castidade e obediência. "Muitas pessoas vêm aqui para conversar, para pedir oração, às vezes para desabafar e elas saem aliviadas, principalmente quando passam na capela. E elas se admiram tanto! Falam: ‘Nossa, como vocês conversam e riem’, pois nós vivemos a nossa vida humana também de uma maneira muito intensa", diz a madre Maria Elisabeth. Infográfico - Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua Arte g1 Longa jornada até a clausura Para ser uma irmã, basta demonstrar interesse — não é necessário, por exemplo, ter sido freira em outro convento antes. O processo de entrada envolve assumir compromissos na congregação até, progressivamente, chegar à clausura. A formação segue o modelo padrão da Igreja Católica, sendo dividido por etapas, cada uma com tempo de duração específico. Em alguns casos, somando todas as etapas, pode passar dos 10 anos. O compromisso definitivo só ocorre com os votos perpétuos, que é a consagração definitiva de uma irmã. Mesmo após essa decisão, ela pode deixar de ser freira, mas isso exige um processo formal que depende da avaliação de instâncias superiores e pode chegar ao Vaticano. Madre Maria Elisabeth é uma das freiras que vivem na congregação Paulo Roberto Martins/RPC A rotina centrada na oração A rotina das freiras começa às 4h45. Elas não revelam publicamente o itinerário do dia, mas contam parte da programação e rotina na congregação. Confira abaixo: Acordam às 4h45 e iniciam o louvor às 5h15, com as Laudes (oração oficial da manhã na chamada Liturgia das Horas); Em seguida, fazem meditação pessoal e depois participam de missa aberta ao público; Após o café da manhã, rezam os chamados "Ofício das Leituras" (ciclo de orações da Liturgia) e "Hora Terça" (que faz parte da Liturgia das Horas); Ao longo do dia, enquanto algumas irmãs se revezam em adoração diante do Santíssimo Sacramento, outras se ocupam com afazeres domésticos; Ao mesmo tempo, outras trabalham com costura, jardinagem, confecção de hóstias, trabalhos manuais e atendimento aos fiéis; Às 12h, são rezam a "Hora Sexta" e outras orações; Após o almoço, elas têm uma hora livre para descanso; Às 15h10 é rezada a "Hora Nona"; Às 17h20, rezam o terço comunitário e seguido das "Vésperas" (oração oficial da tarde da Igreja Católica). Freiras fazem diversas orações ao longo do dia Paulo Roberto Martins/RPC Cada irmã tem ainda uma hora diária para oração pessoal e leitura espiritual. Após o jantar, elas têm uma hora de recreação comunitária, que serve para fomentar a unidade da congregação e favorecer uma vida espiritual saudável. "A última oração comunitária chama-se Completas [última etapa da Liturgia das Horas]. Com ela, encerramos nosso dia e nos preparamos para o descanso noturno", explica a madre Maria Elisabeth. De segunda a sexta-feira, elas produzem hóstias para seis paróquias da Diocese, da qual a congregação faz parte. São cerca de 70 pacotes de 200 gramas fabricados por mês para os fiéis, somando cerca de 49.000 hóstias, e aproximadamente 20 pacotes de hóstias para os sacerdotes, o que totaliza mais ou menos 600 hóstias de tamanhos diferentes. Freiras produzem hóstias no Convento Nossa Senhora do Cenáculo Convento Nossa Senhora do Cenáculo Vídeos mais assistidos do g1 Paraná: A congregação tem cerca de 20 coventos pelo mundo e apenas um no Brasil Veja mais notícias do estado em g1 Paraná