Estupro coletivo contra menores: principais vítimas são meninas adolescentes

Justiça nega habeas corpus a 3 foragidos por estupro coletivo A denúncia de um caso de estupro coletivo ocorrido na noite de 31 de janeiro contra uma adolesce...

Estupro coletivo contra menores: principais vítimas são meninas adolescentes
Estupro coletivo contra menores: principais vítimas são meninas adolescentes (Foto: Reprodução)

Justiça nega habeas corpus a 3 foragidos por estupro coletivo A denúncia de um caso de estupro coletivo ocorrido na noite de 31 de janeiro contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro chocou o país. Quatro jovens são réus por estupro com concurso de pessoas, e a Justiça expediu mandados de prisão contra todos. Segundo a investigação, a vítima foi convidada por um ex-namorado para um encontro amoroso, mas acabou sendo violentada sexualmente por amigos deste jovem. O exame de corpo de delito apontou lesões compatíveis com violência física e escoriação na região genital, além de sangue no canal vaginal. O episódio, que causa indignação na sociedade, evidencia uma das formas mais severas de violência sexual e reacende o debate sobre as políticas de prevenção contra este tipo de agressão. As principais vítimas de estupro coletivo contra menores são meninas adolescentes, vulneráveis socioeconomicamente ou com histórico de traumas, explica o professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC Danilo Baltieri, que já atendeu a mais de mil agressores sexuais em 30 anos. Além disso, a relação entre agressores e vítimas desses casos é geralmente próxima. A subnotificação torna difícil quantificar com precisão a prevalência do estupro coletivo contra menores, mas pesquisas apontam que esse tipo de crime representa uma parcela considerável dos casos de violência sexual grave: estima-se que mais de 370 milhões de meninas e mulheres vivas em todo o mundo tenham sido vítimas de estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos, o que representa uma em cada oito. Baltieri destaca que a subnotificação é alarmante: acredita-se que apenas 7,5% dos casos de estupro sejam reportados. Um estudo de 2025 publicado na revista The Lancet revela que 17,7% das mulheres e 12,5% dos homens brasileiros com 20 anos ou mais foram vítimas de violência sexual na infância ou adolescência. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, 71% dos casos de estupro de 2023 foram contra vulneráveis (menores de 14 anos ou incapazes de consentir). Segundo o documento, o país registrou, 80.605 casos de estupro naquele ano, sendo 57.329 estupros de vulnerável. As maiores taxas de incidência são registradas na região Norte: Acre (69,37 por 100 mil habitantes), Rondônia (68,55) e Roraima (60,69). São Paulo ocupa a primeira posição em números absolutos, com 11.330 casos, seguido pelo Paraná, com 5.272. Entre 2017 e 2020, houve 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável contra vítimas com até 19 anos, o que equivale a uma média anual de 45 mil ocorrências. Crianças de até 10 anos representaram um terço desse total, com 62 mil casos. Meninas de 12 a 17 anos são as maiores vítimas Pesquisas indicam que meninas de 12 a 17 anos (com idade média de 14 anos) são as mais impactadas em casos de estupro. 🌎 No mundo, 89% das vítimas de estupro são mulheres, sendo 81% delas com idades entre 12 e 17 anos. Em alguns tipos deste crime, mais da metade das vítimas é menor de 12 anos. Meninos também são vítimas, principalmente nas faixas etárias mais jovens (3 a 9 anos), correspondendo a 14% dos casos no Brasil. 🇧🇷 No Brasil, 88% das vítimas de violência sexual são meninas, com um pico aos 13 anos. Por outro lado, meninos são mais frequentemente vítimas entre os 3 e 9 anos de idade. Baltieri destaca que, quando se trata de crianças e adolescentes, o impacto causado é ainda mais devastador, uma vez que atinge de maneira profunda o desenvolvimento psicológico, emocional e até mesmo físico dos jovens afetados. “Esse tipo de situação acaba por perpetuar ciclos de trauma que têm o potencial de se estender por toda a vida das vítimas, criando um ciclo vicioso que é difícil de romper”, afirma o psiquiatra. O médico acrescenta que, apesar de o estupro coletivo ser menos frequente do que os assaltos cometidos por um único autor, ele está ligado a um aumento significativo nos riscos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e problemas de saúde mental. Cerca de 30% das vítimas de estupro coletivo sofrem lacerações himenais e 38% apresentam ISTs. Os dados são de uma pesquisa realizada em 2014 que examinou 32 casos de estupro por vários agressores em um único incidente envolvendo adolescentes de 12 a 17 anos, em comparação com 534 casos de assaltos cometidos por um único agressor. Na África do Sul, país onde a violência sexual é endêmica, 8,9% dos homens adultos já confessaram envolvimento em estupro coletivo. Estupro coletivo contra menores: principais vítimas são meninas adolescentes Adobe Stock Relação entre agressores e vítimas geralmente é próxima Em casos de estupro coletivo contra menores, a relação entre agressores e vítimas é geralmente próxima, o que intensifica o trauma e torna as denúncias mais difíceis. Pesquisas apontam que 93% das vítimas com menos de 18 anos têm algum tipo de relação com o agressor: 59% são conhecidos ocasionais 34% são familiares e apenas 7% são estranhos. Em casos de múltiplos perpetradores, 27,7% envolvem estranhos, 28,3% conhecidos ou datas casuais, 10,3% parentes, e 27,7% múltiplos tipos. No Brasil, 86% dos autores são conhecidos, com 67% dos casos ocorrendo na residência da vítima, de acordo com a Unicef Brasil. Dados da violência sexual Juan Silva / Arte g1 Baltieri explica que a investigação de estupro coletivo contra menores enfrenta desafios significativos devido a obstáculos de natureza estrutural, psicológica e social, tornando a subnotificação significativa: apenas 30% dos casos de assalto sexual contra crianças são denunciados à polícia. Os motivos incluem medo de represálias, vergonha e falta de reconhecimento como vítima. Para o médico, é fundamental que a sociedade priorize a prevenção e o apoio, entendendo que o silêncio contribui para a perpetuação do crime: “O estupro coletivo de menores é uma grave violação dos direitos humanos, ocorrendo com uma frequência alarmante no Brasil e o mundo todo e afetando principalmente meninas em situações de vulnerabilidade em contextos de proximidade. Os desafios na investigação exigem reformas imediatas nas políticas públicas, educação e justiça para quebrar ciclos de violência e proteger as vítimas”, declara. O perfil de estupradores A partir da experiência de 30 anos no atendimento a abusadores sexuais, o psiquiatra Baltieri afirma que o histórico de outros comportamentos violentos por parte de estupradores é comumente visto na prática clínica. Sobre os casos de estupro coletivo, ele explica ainda que não observa uma separação clara entre submissão, humilhação e prazer sexual por parte desses criminosos. Segundo o especialista, todos esses itens constituem o que os especialistas chamam de thriller motivation. “Frequentemente, existe um líder, aquele que comanda. Não é incomum encontrarmos aspectos da chamada tríade negra: narcisismo, maquiavelismo e anti-socialidade. A tríade negra precisa ser identificada durante o manejo clínico. Não afirmo que esteja presente em todos os membros da gang, mas naqueles que tive a oportunidade de atender, isso é comum”, declara. Entenda o caso de Copacabana Segundo o inquérito, a vítima foi convidada por um ex-namorado para ir ao apartamento de um amigo dele, em Copacabana. No imóvel, ela foi levada para um quarto e, enquanto mantinha relação sexual com o ex, outros quatro rapazes entraram no cômodo. A vítima relatou que, após insistência do adolescente, concordou apenas que os amigos permanecessem no quarto, desde que não a tocassem. Mas, segundo o depoimento, os rapazes forçaram a jovem a praticar sexo oral e fizeram que ela sofresse penetração por todos. Ela afirmou ainda que levou tapas, socos e um chute na região abdominal. A jovem tentou sair do quarto, mas foi impedida. O exame de corpo de delito apontou lesões compatíveis com violência física e a perícia identificou infiltrado hemorrágico e escoriação na região genital, além de sangue no canal vaginal. Também foram descritos grupos de manchas nas regiões dorsal e glúteas. Materiais foram coletados para exames genéticos e análise de DNA. Na manhã desta terça-feira (3), o até então foragido Mattheus Verissimo Zoel Martins, de 19 anos, sem entregou à polícia. Outros 3 investigados seguiam foragidos até a última atualização desta reportagem: Bruno Felipe dos Santos Allegretti, de 18 anos; João Gabriel Xavier Bertho, de 19 anos e Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos. Anteriormente, a Justiça do Rio de Janeiro tinha negado habeas corpus aos foragidos. O adolescente que convidou a vítima também é investigado por ato infracional análogo ao crime. O procedimento dele foi desmembrado para a Vara da Infância e Juventude, que ainda não tinha decidido pela apreensão dele ou não. Por se tratar de um menor, a identidade não será divulgada. Dois dos 5 envolvidos em estupro coletivo são acusados de outro caso semelhante; vítima tinha 14 anos 'O 'não' dela é muito precioso e importa', diz mãe de vítima de estupro coletivo no Rio