Estudo do UNICEF explica por que muitas gestantes trocam o parto normal pela cesariana

Estudo do UNICEF explica por que muitas gestantes trocam o parto normal pela cesariana Adobe Stock A maioria das brasileiras inicia a gestação desejando um pa...

Estudo do UNICEF explica por que muitas gestantes trocam o parto normal pela cesariana
Estudo do UNICEF explica por que muitas gestantes trocam o parto normal pela cesariana (Foto: Reprodução)

Estudo do UNICEF explica por que muitas gestantes trocam o parto normal pela cesariana Adobe Stock A maioria das brasileiras inicia a gestação desejando um parto normal. Ainda assim, a cesariana é a via de nascimento mais frequente no país. Para entender por que tantas mulheres mudam de ideia ao longo da gravidez, um estudo do UNICEF identificou que a decisão sobre o tipo de parto é construída durante toda a gestação e sofre influência de fatores psicológicos, sociais e estruturais. A pesquisa conclui que a escolha não depende apenas da vontade da gestante. Medos, crenças, experiências anteriores, relatos de familiares, qualidade do pré-natal, organização dos serviços de saúde e acesso à informação atuam simultaneamente e ajudam a explicar por que muitas mulheres acabam realizando uma cesariana mesmo quando preferiam o parto vaginal. O estudo ouviu 94 gestantes e puérperas e entrevistou 37 profissionais de saúde das redes pública e privada em Belém (PA) e São Paulo (SP), cidades escolhidas por apresentarem altas taxas de cesarianas e contextos sociais distintos. Segundo os pesquisadores, compreender como essa decisão é construída é essencial para reduzir cesarianas sem indicação clínica e garantir que a escolha da via de nascimento seja realmente informada e respeitada. A decisão começa antes do parto Segundo o relatório, a escolha entre parto vaginal e cesariana não ocorre apenas no momento da internação. Ela é construída durante o pré-natal, conforme a gestante recebe orientações, conversa com familiares, acompanha relatos de outras mulheres e estabelece vínculo com os profissionais de saúde. Agora no g1 Embora a cesariana seja um procedimento essencial quando existe indicação clínica, o estudo destaca que sua frequência no Brasil supera a esperada para situações obstétricas de urgência. Nas cidades analisadas, 69,28% dos nascimentos em Belém e 56,19% em São Paulo ocorreram por cesariana. Na rede privada, os índices chegaram a 80,41% e 71,05%, respectivamente. Três grupos de fatores explicam a mudança de decisão Os pesquisadores organizaram os resultados em três grandes grupos de determinantes: psicológicos, sociais e estruturais. Entre os fatores psicológicos, a recuperação mais rápida após o parto vaginal, o medo da cirurgia e experiências positivas anteriores favoreceram a preferência pelo parto normal. Por outro lado, medo da dor, despreparo para enfrentar o trabalho de parto, desejo de realizar laqueadura e baixa autonomia para participar da decisão apareceram como barreiras importantes. O estudo mostra que muitas mulheres passam a solicitar uma cesariana durante o trabalho de parto não por complicações clínicas, mas pelo cansaço, pela dor intensa e pelo desconhecimento sobre a evolução do processo. Segundo os pesquisadores, isso reforça a importância da preparação durante o pré-natal. Família tem papel decisivo na escolha Depois dos fatores individuais, a influência familiar apareceu como um dos principais determinantes da via de nascimento. Entre usuárias do SUS, mães, avós e outras mulheres da família costumam incentivar o parto vaginal, principalmente pela percepção de recuperação mais rápida. Já na rede privada, predominam relatos positivos sobre cesarianas realizados por mulheres que tiveram filhos durante o período de expansão desse procedimento no Brasil, fortalecendo uma norma social favorável à cirurgia. Os parceiros, em geral, respeitam a decisão da gestante, mas participam pouco do pré-natal. Segundo profissionais entrevistados, essa ausência dificulta a compreensão sobre o trabalho de parto e pode levar alguns acompanhantes a defenderem uma cesariana ao presenciarem a dor das contrações, mesmo sem indicação clínica. Organização da assistência também influencia O estudo conclui que a estrutura dos serviços de saúde exerce papel importante na decisão sobre o parto. Entre os fatores que favorecem escolhas mais informadas estão um pré-natal que prepare efetivamente a gestante, utilização do Plano de Parto, funcionamento de Centros de Parto Normal e acompanhamento contínuo durante a gravidez. Já entre as principais barreiras aparecem o início tardio do pré-natal, orientações insuficientes sobre o trabalho de parto, desconhecimento do Plano de Parto, acesso limitado à analgesia, dificuldades para realizar laqueadura após parto vaginal e questões relacionadas à legislação sobre cesarianas. A pesquisa também mostra que praticamente todas as gestantes utilizam internet e redes sociais para buscar informações sobre gravidez e parto. Apesar disso, os profissionais que acompanham o pré-natal continuam sendo considerados a principal fonte para confirmar ou esclarecer essas informações. Como o estudo foi feito A pesquisa foi qualitativa, observacional e transversal, realizada em Belém e São Paulo. Além de revisão da literatura científica e de documentos oficiais, os pesquisadores conduziram entrevistas e grupos focais com gestantes, puérperas e profissionais da saúde. Participaram 94 gestantes e puérperas e 37 profissionais de saúde. A análise foi baseada no Modelo de Determinantes Comportamentais (Behavioural Drivers Model – BDM), desenvolvido pelo UNICEF, que considera que decisões em saúde resultam da interação entre fatores psicológicos, sociais e ambientais. O que o UNICEF recomenda Com base nos resultados, o UNICEF recomenda fortalecer a preparação das gestantes durante o pré-natal, ampliar a participação de parceiros e acompanhantes, incentivar redes comunitárias de apoio, melhorar a organização dos serviços de saúde e ampliar o acesso ao Plano de Parto, à analgesia e à laqueadura após parto vaginal. Para os autores, aumentar a proporção de partos vaginais seguros depende menos de convencer as mulheres sobre seus benefícios e mais de criar condições para que elas possam exercer sua escolha com autonomia, informação, apoio e assistência adequada.