Estudante perde vaga na Unir após se passar por indígena em processo seletivo

Unir Universidade Federal de Rondônia Campus Ana Kézia Gomes/ G1 Um estudante, que não teve a identidade divulgada, perdeu a vaga no curso de Direito da Un...

Estudante perde vaga na Unir após se passar por indígena em processo seletivo
Estudante perde vaga na Unir após se passar por indígena em processo seletivo (Foto: Reprodução)

Unir Universidade Federal de Rondônia Campus Ana Kézia Gomes/ G1 Um estudante, que não teve a identidade divulgada, perdeu a vaga no curso de Direito da Universidade Federal de Rondônia (Unir) após decisão da Justiça que confirmou fraude no sistema de cotas indígenas. De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), o jovem não possui vínculo comprovado com o povo Karitiana. Investigações mostraram que nem o pai nem o avô dele aparecem em registros ou árvores genealógicas da etnia. O caso começou em 2024, quando o candidato se autodeclarou indígena para concorrer a uma vaga reservada. Ele chegou a ser reprovado pela banca de heteroidentificação da universidade, responsável por verificar o pertencimento étnico. Mesmo assim, conseguiu na Justiça uma decisão provisória que permitiu sua matrícula no curso. Ao longo do processo, o MPF reuniu provas que comprovaram que o estudante não era indígena, o que levou ao cancelamento definitivo da matrícula. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Como a fraude foi descoberta Em documento enviado ao MPF, lideranças do povo Karitiana afirmaram que não reconhecem o estudante como integrante da comunidade. Segundo eles, o jovem não possui qualquer ligação histórica, cultural ou familiar com o grupo. O relato também aponta que o estudante enganou membros da comunidade para obter assinaturas em uma declaração falsa. Ele teria afirmado pertencer ao povo Parintintin e dito que não teve tempo de conseguir assinaturas de sua própria comunidade, localizada em Humaitá (AM). Acreditando na versão, algumas pessoas assinaram o documento. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias de RO em tempo real e de graça A banca da Unir desconfiou das informações e decidiu verificar a autenticidade da declaração. Ao entrar em contato com os signatários, descobriu que o conteúdo não era verdadeiro. Durante a entrevista, o estudante também não conseguiu demonstrar conhecimento básico sobre o povo Karitiana, como cultura, tradições, história ou localização da aldeia. Segundo o procurador da República em Rondônia, Leonardo Caberlon, não basta a autodeclaração para garantir o acesso às cotas. É necessário o reconhecimento pela própria comunidade indígena, conforme prevê a Constituição Federal. VEJA TAMBÉM: Suspeito de tentar matar a esposa e fugir com o filho é preso em RO Assaltante é atacado por pit bulls enquanto tentava fugir da polícia em Porto Velho Pertencimento e o risco do “índio de papel” Para embasar o caso, a antropóloga Andréa Carvalho Mendes elaborou um laudo a pedido do MPF e do povo Karitiana. Pesquisadora da etnia há anos, ela possui registros de parentesco da comunidade que remontam aos últimos 130 anos. Segundo a especialista, o uso exclusivo de critérios documentais pode abrir espaço para fraudes e para o chamado “índio de papel”, quando pessoas sem vínculo real se declaram indígenas, o que evidencia práticas de racismo estrutural. O laudo também aponta que, até 2018, cerca de 80% dos estudantes autodeclarados indígenas na Unir não conseguiam comprovar pertencimento a um povo originário. Como consequência, muitos não tinham acesso à bolsa permanência, benefício destinado a estudantes indígenas. Até 2019, a universidade aceitava apenas a autodeclaração como critério. A partir de 2024, após pressão de movimentos sociais, foram implementadas as bancas de heteroidentificação. Na ação judicial, o MPF anexou tanto o documento das lideranças Karitiana quanto o laudo antropológico. A Unir reforçou que, no caso das cotas indígenas, não são considerados aspectos físicos, mas sim o vínculo, a vivência e o pertencimento à comunidade. O MPF informou ainda que há diversas denúncias de ocupação irregular de vagas destinadas a indígenas na universidade. Os casos estão sendo investigados por meio de um inquérito civil.