Denúncia do MP detalha esquema de loteamento irregular envolvendo empresários e policiais

Denúncia do MP detalha esquema de loteamento irregular envolvendo empresários e policiais A denúncia que embasou a operação contra loteamentos ilegais no ...

Denúncia do MP detalha esquema de loteamento irregular envolvendo empresários e policiais
Denúncia do MP detalha esquema de loteamento irregular envolvendo empresários e policiais (Foto: Reprodução)

Denúncia do MP detalha esquema de loteamento irregular envolvendo empresários e policiais A denúncia que embasou a operação contra loteamentos ilegais no Parque Estadual da Pedra Branca, obtida com exclusividade pelo RJ2, descreve uma estrutura que reunia empresários e agentes públicos com o objetivo de lucrar com a venda de terrenos em um empreendimento clandestino localizado em Campo Grande. A operação do Ministério Público do Rio de Janeiro prendeu três policiais civis e um empresário suspeitos de integrar uma organização criminosa responsável pelo esquema de loteamento. Segundo o Ministério Público, o grupo atuava sem licença ambiental e sem autorização do poder público. A investigação aponta que a área foi desmatada para a implantação do loteamento, dentro da região de proteção ambiental do parque. Em um vídeo registrado durante o avanço das obras, uma testemunha relata a destruição da vegetação. “Ele arranca a vegetação e bota embaixo da esteira, vai subindo em cima e vai indo embora. Já tá bem adiantado, perdeu o medo já.” De acordo com a denúncia, o empresário Milton de Souza Júnior, apontado como chefe da organização, teria construído vínculos com a milícia, invadido o terreno e iniciado a comercialização dos lotes. Ele foi preso na Operação Pedra Branca, realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pelo Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema). O promotor de Justiça responsável pelo caso afirmou que os prejuízos vão além dos danos ambientais. “Essas pessoas estão sendo lesadas. A quadrilha lesa o meio ambiente, lesa a coletividade do ponto de vista ambiental e lesa consumidores também”, disse. Policiais são acusados de proteger empreendimento Operação do MPRJ mira policiais civis no Rio O Ministério Público afirma que a organização criminosa contava com apoio de agentes públicos para impedir o avanço das investigações. Três policiais civis são acusados de proteger o loteamento irregular e de atuar para inviabilizar apurações sobre o empreendimento. A denúncia aponta que o policial civil Marcos Eduardo Maia era aliado de Milton de Souza Júnior e teria participado da articulação do esquema de corrupção. Já o policial Marcello Menezes, que atuava na Delegacia de Campo Grande (35ª DP), seria responsável por manter contato com os envolvidos. Em uma das gravações obtidas pela investigação, Menezes pede retorno a um dos suspeitos. “Fala, meu brother, boa tarde. Cara, me liga urgente, tenho que te passar um recado. Tá? Me liga aí.” Compradores tiveram prejuízo de quase R$ 1 milhão Em 2021, após uma operação da Prefeitura do Rio contra o condomínio irregular, famílias que haviam comprado lotes procuraram a polícia para denunciar prejuízos. Segundo a investigação, as perdas somadas chegaram a quase R$ 1 milhão. As vítimas relataram que acreditaram nas promessas de que o empreendimento estava regularizado. Propina teria servido para engavetar investigações O Ministério Público sustenta que inquéritos instaurados na Delegacia de Campo Grande contra os responsáveis pelo loteamento acabaram sendo engavetados em troca do pagamento de propina. Segundo o promotor Eduardo Pinho, a investigação revelou um esquema de corrupção dentro da unidade policial. “Se desbaratou, na verdade, um grande esquema de corrupção envolvendo justamente policiais civis da 35ª DP, sendo identificado já nessa denúncia o envolvimento do policial civil Marcello Menezes, que era quem fazia contato com Marcos Eduardo Maia e cobrava dele o pagamento de propina para que essas investigações, diversas investigações em curso na delegacia, não surtissem nenhum efeito”, afirmou. A denúncia inclui trocas de mensagens que, segundo os promotores, indicam negociações relacionadas ao pagamento de suborno. Em uma delas, Marcello Menezes escreve: “Vamos brindar hoje?” Marcos Eduardo Maia responde: “Estou aguardando o amigo fazer contato.” Em seguida, acrescenta: “Espero que sim.” Em outra conversa, interpretada pelos investigadores como cobrança pelo pagamento da propina, Menezes escreveu: “Irmão, mais um dia se passou e nada. Informei ao chefe ontem que você iria me ligar pra marcar o encontro, e no final do dia ele me perguntou se você havia me ligado e disse que não.” As cobranças continuaram também por mensagens de áudio. “Fala comigo, meu parceiro, fala comigo. Dá uma notícia boa pro teu amigo aí, cara. Pelo amor de Deus, dá notícia boa pra mim.” Em outro trecho, ele afirma: “Dá uma ligada pro amigo aí, para mim dar esse retorno aí que eu te falei ontem, só para eu poder dar um feedback lá para o chefe.” Delegado é investigado De acordo com o Gaeco, o “chefe” mencionado nas conversas seria o delegado Túlio Pelosi, que trabalhou na Delegacia de Campo Grande. Ele foi alvo de mandado de busca e apreensão e segue sendo investigado. Ao todo, 15 pessoas foram denunciadas pelos crimes de estelionato, corrupção e delitos contra o meio ambiente. O que dizem os envolvidos Em nota, a Corregedoria-Geral da Polícia Civil informou que instaurou procedimento disciplinar para apurar a conduta dos envolvidos. A corporação afirmou que não compactua com eventuais desvios de conduta e que mantém mecanismos de controle interno para investigar e corrigir irregularidades. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) também foi procurado. A reportagem não conseguiu contato com as defesas dos alvos da operação.