4 das 10 das redações nota mil do Enem 2025 geraram divergências entre os corretores; uma delas recebeu 600 e 760 na '1ª instância'
Folha de rascunho da Redação do Enem. Emily Santos/g1 Das dez redações que tiraram a nota máxima no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025, quatro ger...
Folha de rascunho da Redação do Enem. Emily Santos/g1 Das dez redações que tiraram a nota máxima no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025, quatro geraram grandes divergências entre os professores da banca avaliadora. ➡️Um dos candidatos, por exemplo, do Recife, havia recebido 600 do corretor 1 e 760 do corretor 2. No boletim final, por decisão de uma banca extraordinária, o aluno ficou com… 1.000 pontos. Nesta reportagem, entenda por que distorções tão significativas podem ocorrer — e quais as possíveis explicações para que um mesmo texto seja avaliado de maneiras tão diferentes. As principais hipóteses são as seguintes: diferentes critérios para classificar o que é um repertório “de bolso”; mudanças que o Inep adotou nas regras de correção do Enem 2025, como o g1 revelou em fevereiro deste ano. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo Enem, garante que o processo de correção segue “rigorosamente os parâmetros pedagógicos, metodológicos e operacionais previstos nos instrumentos oficiais do exame” (leia mais abaixo). Infográfico explica como as redações são corrigidas Arte/g1 A seguir, veja o “raio-X” das quatro redações nota mil, com base nos microdados do Enem divulgados nesta semana pelo Inep. Elas estão destacadas em vermelho no próximo infográfico. As outras seis dissertações que alcançaram o desempenho máximo foram avaliadas de maneira unânime logo de imediato, por dois corretores, sem a necessidade de um terceiro e um quarto pareceres: Veja as notas dadas por cada corretor Arte/g1 Como uma distorção tão grande foi possível? No caso real do aluno que tirou 600 e 760, mas ficou com mil, o processo foi o seguinte: Leve em conta que a pontuação vai sempre de 0 a 1.000. Como a diferença entre o corretor 1 e o corretor 2 foi de mais de 80 pontos (760 - 600 = 160), as regras estabelecem que um terceiro profissional deve ser convocado. Nesse caso, o corretor 3 deu 960 pontos. Mais uma nota fora do padrão das anteriores. Quando continua havendo uma discrepância significativa entre os três corretores, como ocorreu aqui, é convocada a “quarta instância”: uma banca corretora que tem acesso às notas anteriores e que precisa dar o veredito. A nota dessa banca é incontestável. As dos outros três corretores são descartadas nesta etapa. Resultado: a “quarta instância” decidiu que o aluno tiraria nota mil. Ao g1, o Inep afirmou que essa última banca é “altamente qualificada, composta por doutores e especialistas”. Disse também que “o procedimento garante que a nota final não seja fruto de subjetividade, mas de uma convergência técnica consistente”. Mas o que explica que um mesmo texto receba 600 pontos e 1.000 pontos, dependendo de quem o corrigiu? De acordo com professores que fizeram parte da banca avaliadora no Enem 2025 e com docentes de cursinhos, pequenas variações são esperadas — até porque sempre existe a possibilidade de erro humano. Mas divergências como as que ocorreram na última edição da prova indicariam problemas na capacitação dos profissionais. Os motivos seriam: 1- Avaliação diferente de 'repertórios de bolso' (competência 2) Veja as notas em cada competência Arte/g1 No manual do candidato, o Inep reforçou que os repertórios socioculturais (referências a autores, a livros ou a filmes, por exemplo, para embasar um argumento) não poderiam ser “de bolso”. Ou seja: citações genéricas, sem a devida contextualização, seriam penalizadas na competência 2, para combater os “modelos prontos” memorizados por parte dos alunos. ➡️Os critérios para classificar um repertório como válido ou “de bolso” parecem ter variado significativamente entre um corretor e outro. Houve discrepâncias que chegaram a 80 pontos entre diferentes avaliadores para o mesmo texto. Vejamos o caso do aluno 5, de Fortaleza: enquanto o avaliador 1 e o avaliador 4 atribuíram 200 pontos para a competência 2, os avaliadores 2 e 3 deram apenas 120 pontos. Em outra situação, com o aluno 7, de Lauro de Freitas (BA), as notas na C2 também variaram de 120 a 200. Um dos repertórios usados por esse candidato foi o seguinte: “Acerca disso, Achille Mbembe, filósofo camaronês, afirma, a partir de seu conceito de "Necropolítica", que o Estado decide quem vive e quem é destinado a um projeto de morte. Nesse rumo, percebe-se que a ideia do filósofo é autêntica e aplicável ao contexto do envelhecimento na sociedade brasileira, uma vez que, devido à composição hegemônica do corpo político (deputados e senadores majoritariamente distantes dos 65 anos, isto é, alheios à realidade da velhice), são escassas as políticas públicas, como a garantia de equipes especializadas em geriatria nas UBS, destinados a esse público. (...)" Para a banca final, a citação foi pertinente e conectada de maneira apropriada ao tema proposto (envelhecimento da população). Antes, outro corretor, lendo a mesma redação, descontou 80 pontos. “Uns [corretores] foram orientados de uma forma mais rígida — em relação às competências 2 e 3, principalmente. Outros ignoraram e corrigiram não penalizando tanto os repertórios com problemas”, afirma uma professora da banca corretora do Enem 2025. Fica a discussão: a banca final conseguiu corrigir uma injustiça que os outros corretores teriam praticado? Ou acabou favorecendo (mesmo que sem querer) um aluno que não deveria ter tirado mil? Outro profissional que participou das correções também atribui essas divergências a uma falta de clareza nos cursos preparatórios. Segundo ele, as orientações passadas pelo Inep nos treinamentos presenciais não foram as mesmas em todas as regiões. “Ficou subjetiva, a correção”, diz. “Acredito que esse formato de fazer um curso presencial para os professores, com uma pessoa falando para 20 ou 30 corretores, isso no Brasil todo, gera discrepâncias. Uma formação que fosse totalizante, que fosse única, com uma perspectiva apenas, seria melhor. Existe muito desencontro entre as informações passadas em um lugar ou em outro.” 2- Mudança nas regras Exclusivo: documentos sigilosos mostram que correção da redação do Enem 2025 seguiu regras diferentes de anos anteriores Em fevereiro de 2026, o g1 revelou que as redações do Enem 2025 haviam sido corrigidas a partir de “regras” diferentes das edições anteriores. As novas orientações podem não ter sido comunicadas ou compreendidas da mesma maneira por todos os corretores do país. Uma delas foi na competência 3. ➡️Um documento extra, enviado por e-mail aos corretores depois dos treinamentos presenciais, passou a estabelecer que a competência 2 deveria dialogar com a 3. Ou seja, repertórios socioculturais avaliados de maneira negativa pela banca passaram a ser punidos em duas competências, não mais em uma. Trecho de documento confidencial que estabelece ligação entre duas competências Arquivo pessoal Em dois casos de nota mil do Enem 2025, os corretores atribuíram, para o mesmo texto, pontuações que variaram de 120 e 200 pontos na C3. No exemplo do aluno 5, enquanto o terceiro avaliador atribuiu 120, o quarto avaliador deu a nota máxima. Thiago Braga, gestor de Linguagens do colégio e autor do sistema pH, reforça que o problema parece ter ocorrido no processo de preparação dos corretores. “Certamente há alguma relação entre essas mudanças posteriores [nas regras, feitas pelo Inep].Isso levanta perguntas da sociedade: será que todos os corretores receberam essas mudanças? Aqui, identificamos um problema de gestão grave que não pode acontecer novamente”, diz.